
Quantas vezes damos por nós a reagir sem pensar? Uma palavra atravessada, um gesto inesperado ou até um pensamento repetitivo pode levar-nos a agir de forma automática, sem percebermos bem porquê. Daniel Siegel chamou a esta capacidade de olhar para dentro — e também para os outros — de Mindsight, que em português podemos traduzir como “visão da mente”.
O Mindsight é mais do que autoconsciência. É a capacidade de reconhecer o que sentimos e pensamos no momento presente, sem julgamento, e ao mesmo tempo perceber que os outros também têm uma vida mental própria. É uma espécie de lente que nos permite observar o nosso mundo interior e o das pessoas à nossa volta.
Imagine uma criança que, perante um conflito, aprende a dizer: “Estou zangada, o meu coração está a bater rápido.” Neste simples gesto, ela está a praticar Mindsight: dá nome ao que sente e, ao fazê-lo, começa a regular-se melhor. Da mesma forma, quando um adulto consegue perceber que alguém reage com irritação porque está cansado ou preocupado, está também a usar Mindsight.
Esta prática pode transformar relações. Na psicologia, ajuda os utentes a compreenderem padrões de pensamento e emoção. Na parentalidade e na educação, permite apoiar crianças e adolescentes a reconhecerem e nomearem emoções, em si e nos outros. E no quotidiano, convida-nos a ser mais empáticos, mais atentos e mais conscientes da forma como comunicamos.

Contudo, como qualquer ferramenta, também tem as suas limitações. Para pessoas que passaram por traumas significativos, observar emoções pode ser demasiado intenso sem apoio profissional. Em momentos de crise aguda, pode não ser possível aplicar esta capacidade de imediato. E, em alguns casos, existe o risco de sobreanalisar, transformando a vida interior num espaço de excesso de vigilância em vez de equilíbrio.
Ainda assim, o Mindsight pode ser visto como um treino para a mente. Tal como os músculos se fortalecem com o exercício físico, a capacidade de perceber a si próprio e ao outro também se desenvolve com prática, paciência e abertura.
Da próxima vez que sentir uma emoção forte, experimente parar e perguntar-se: “O que estou realmente a sentir neste momento? Que impacto isto tem em mim e em quem está à minha volta?” Talvez descubra que, ao ver a sua própria mente com mais clareza, também passa a ver o mundo com outros olhos.
Em suma, as propostas de Daniel Siegel recordam-nos que compreender a mente e cultivar a consciência pode ser um caminho simples e transformador para viver com mais equilíbrio, empatia e bem-estar.