D.H. Trauma – O trauma psicológico: quando o corpo guarda o que a palavra não conseguiu dizer

Falar de trauma psicológico implica, muitas vezes, falar daquilo que não foi possível dizer no momento em que aconteceu. O trauma não se define apenas pelo acontecimento em si, mas pela forma como este foi vivido, integrado — ou não — pela pessoa. Há experiências que ultrapassam a capacidade de resposta emocional e cognitiva do indivíduo naquele momento, ficando registadas no corpo, nas emoções e nas relações.

Compreender o trauma exige um olhar cuidadoso, que reconheça a singularidade de cada história e respeite o ritmo de cada pessoa.

O trauma psicológico surge quando uma experiência é vivida como excessiva, ameaçadora ou avassaladora, comprometendo o sentimento de segurança física e/ou emocional. Nem todas as pessoas reagem da mesma forma a um mesmo acontecimento, o que reforça a ideia de que o trauma não está apenas no evento, mas na experiência subjetiva.

Seria importante que o trauma fosse compreendido como um processo, e não como um rótulo. Muitas respostas traumáticas correspondem, na verdade, a tentativas de adaptação e sobrevivência perante contextos adversos.

Trauma agudo e trauma complexo

O trauma agudo está geralmente associado a um acontecimento único ou delimitado no tempo, como um acidente, uma agressão, uma catástrofe ou uma perda súbita. Embora o impacto possa ser intenso, existe, em alguns casos, uma maior possibilidade de integração da experiência quando há suporte adequado.

Já o trauma complexo desenvolve-se a partir de experiências repetidas ou prolongadas, frequentemente em contextos relacionais significativos, como situações de negligência, abuso físico ou emocional, violência doméstica ou ambientes familiares imprevisíveis. Nestes casos, o trauma tende a afetar de forma mais profunda a identidade, a regulação emocional e a forma como a pessoa se relaciona consigo e com os outros.

Seria importante que, em contexto terapêutico, esta distinção fosse considerada, uma vez que implica necessidades e tempos de intervenção diferentes.

O trauma ao longo da vida

Na infância, o trauma interfere diretamente com o neurodesenvolvimento. A criança necessita de figuras cuidadoras previsíveis para construir segurança interna. Quando isso não acontece, o sistema nervoso pode permanecer em constante estado de alerta. O impacto pode refletir-se em dificuldades de regulação emocional, problemas de comportamento, alterações do sono, dificuldades de atenção ou relações marcadas pela desconfiança.

Na adolescência, fase já por si marcada por mudanças intensas, o trauma pode manifestar-se através de comportamentos de risco, isolamento, dificuldades na construção da identidade ou relações interpessoais instáveis. Muitas vezes, o sofrimento surge mascarado por atitudes de oposição ou aparente indiferença. Seria importante que o adulto de referência — seja família, escola ou técnico — consiga olhar para além do comportamento e compreender o que este poderá estar a comunicar.

Na idade adulta, o trauma pode reaparecer de forma mais evidente em momentos de transição ou stress, como perdas, separações, parentalidade ou doença. Sintomas de ansiedade, depressão, dificuldades relacionais ou sensação persistente de vazio podem estar associados a experiências traumáticas não integradas. Muitos adultos chegam à terapia sem uma memória clara do que aconteceu, mas com um corpo e emoções que continuam a reagir como se o perigo ainda estivesse presente.

Como o trauma se manifesta

O trauma pode provocar emoções intensas e difíceis de regular, como medo, vergonha, culpa ou raiva. Em alguns casos, pode surgir também um embotamento emocional, como forma de autoproteção.

Ao nível cognitivo, é comum surgirem pensamentos rígidos sobre si próprio (“não sou suficiente”, “não posso confiar”), sobre os outros ou sobre o mundo. Estes esquemas podem ter sido adaptativos no passado, mas tornam-se limitadores no presente.

O corpo é frequentemente o principal guardião da memória traumática. Tensões musculares, dores persistentes, alterações gastrointestinais, fadiga ou sensação constante de alerta são manifestações frequentes. O corpo lembra-se, mesmo quando a mente tenta esquecer.

Implicações para a intervenção terapêutica

A intervenção em trauma necessita, antes de tudo, de segurança. Seria importante que o utente se sentisse visto, respeitado e no controlo do processo. Forçar a recordação ou a verbalização pode ser contraproducente e reativar o sofrimento.

O ritmo da terapia necessita de ser ajustado à capacidade de autorregulação do utente. A relação terapêutica assume aqui um papel central, funcionando como espaço reparador onde, gradualmente, novas experiências emocionais podem ser vividas. Mais do que “tratar” o trauma, seria importante acompanhar o utente no processo de integração da sua história, reconhecendo a sua resiliência e os recursos que lhe permitiram chegar até aqui.

O trauma não define a pessoa, mas influencia profundamente a forma como ela sente, pensa e se relaciona. Olhar para o trauma com respeito, curiosidade e cuidado é, em si, um primeiro passo terapêutico. Talvez seja importante lembrarmo-nos de que, muitas vezes, aquilo que parece resistência foi, em algum momento, sobrevivência.

Referências BibliográficasManuais MSD