A expressão bucket list é frequentemente associada a uma lista de desejos a concretizar “antes de morrer”. No entanto, esta leitura pode ser redutora e até pesada, sobretudo quando é vivida como uma corrida contra o tempo ou como uma sucessão de metas a cumprir. Talvez seja mais útil pensá-la como uma lista de intenções de vida: aquilo que dá sentido aos dias, que desperta curiosidade, que alimenta a esperança e que ajuda a manter viva a ligação a quem somos e ao que valorizamos.

Assim, a bucket list não necessita de ser extraordinária nem grandiosa. Pode ser simples, íntima e profundamente humana. Pode conter viagens longínquas, mas também momentos pequenos e aparentemente banais, como “aprender a estar em silêncio sem culpa”, “voltar a escrever”, “criar tempo para brincar”, ou “permitir-me descansar”. Mais do que um conjunto de objetivos, pode ser entendida como um espelho das necessidades emocionais, dos valores pessoais e da forma como cada pessoa se posiciona perante a vida.
A expressão bucket list popularizou-se em 2007 com o filme The Bucket List (em português, Antes de Partir), onde duas personagens constroem uma lista de experiências a viver antes da morte. No entanto, a ideia de refletir sobre o que se deseja viver, experienciar e sentir ao longo da vida é muito mais antiga e transversal à história humana. O termo mudou, mas a necessidade de sonhar, projetar e dar sentido ao tempo permanece.
Bucket list e psicologia

Do ponto de vista psicológico, a bucket list está intimamente ligada à noção de projeto de vida. Ter projetos, mesmo que pequenos, ajuda a organizar o pensamento, a criar direção e a sustentar a motivação. Seria importante que estes projetos não fossem vividos como imposições externas, mas como escolhas internas, ajustadas ao momento de vida, às capacidades e às circunstâncias de cada pessoa.
A elaboração de uma bucket list pode funcionar como um exercício de esperança ativa. Não se trata de negar dificuldades ou sofrimentos, mas de reconhecer que, mesmo em contextos difíceis, continua a existir espaço para desejo, curiosidade e construção de significado. Em muitos casos, pensar no futuro, ainda que de forma simples, pode ser um fator protetor ao nível emocional.
Ao mesmo tempo, necessita de ser flexível. A vida muda, as prioridades transformam-se e aquilo que hoje faz sentido pode deixar de fazer amanhã. Uma bucket list saudável acompanha estas mudanças, sem rigidez nem culpa.
A bucket list como ferramenta de autoconhecimento

Construir uma bucket list implica parar e escutar. Escutar o que se deseja verdadeiramente, para além do que é socialmente valorizado ou esperado. Pode ser útil perguntar:
- O que me faz sentir vivo(a)?
- O que tenho adiado?
- O que me traz tranquilidade?
- O que gostaria de experimentar, mesmo que de forma simbólica?
Este exercício permite diferenciar desejos autênticos de pressões externas. Em vez de uma lista baseada na comparação com os outros, a bucket list pode transformar-se num espaço de reconexão consigo próprio(a). Seria importante que fosse construída num ambiente de respeito interno, sem julgamentos e sem a necessidade de “ter uma vida extraordinária”.
Muitas vezes, aquilo que surge não são grandes feitos, mas necessidades emocionais básicas: pertença, descanso, segurança, criatividade, liberdade. E isso, por si só, já é profundamente revelador.
A bucket list em contexto terapêutico
Em contexto terapêutico, a bucket list pode assumir diferentes funções, consoante a idade, a fase de vida e os objetivos da intervenção.

Com crianças e adolescentes, pode ser uma forma lúdica de trabalhar sonhos, identidade e noção de futuro. Seria importante que fosse apresentada como um espaço de imaginação e não como compromisso rígido. Pode ajudar a criança ou o jovem a sentir que o futuro é um lugar possível e que os seus desejos têm valor.
Com adultos, a bucket list pode ajudar a resgatar partes esquecidas de si, projetos adiados, interesses que ficaram suspensos pela exigência do quotidiano. Em contextos de esgotamento emocional, luto ou transições de vida, pode funcionar como um fio condutor para a reconstrução do sentido.
Com pessoas idosas, pode assumir um carácter mais integrativo: olhar para o que foi vivido, valorizar o percurso e, simultaneamente, reconhecer que ainda existem experiências possíveis, mesmo que em formatos mais pequenos. Seria importante que aqui a bucket list não estivesse centrada apenas no “fazer”, mas também no “sentir” e no “partilhar”.
Quando a bucket list pode tornar-se pesada
Apesar do seu potencial positivo, a bucket list também pode perder o seu caráter de cuidado e tornar-se uma fonte de pressão. Isso acontece, sobretudo, quando passa a ser vivida como uma obrigação ou como uma lista de tarefas a cumprir para provar algo a si próprio(a) ou aos outros.
Seria importante que não fosse construída a partir da comparação social. As redes sociais, em particular, tendem a mostrar versões idealizadas da vida, onde viajar muito, viver experiências extremas ou ter conquistas constantes parece ser o padrão. Quando a bucket list nasce desse lugar, pode gerar frustração, sentimento de insuficiência e a ideia de que a própria vida “não é suficiente”.

Também pode tornar-se pesada quando ignora os limites reais da pessoa: físicos, emocionais, financeiros ou contextuais. Sonhar é essencial, mas sonhar sem acolher a realidade pode gerar sofrimento. Uma bucket list saudável necessita de diálogo entre desejo e possibilidade, sem que nenhum dos dois anule o outro.
Por vezes, surge ainda a culpa: culpa por não concretizar, por adiar, por mudar de ideias. Aqui, seria importante recordar que a bucket list não é um contrato nem um teste de valor pessoal. É apenas um mapa interno, que pode ser redesenhado sempre que a vida o pedir.
Uma bucket list realista e emocionalmente saudável
Uma bucket list emocionalmente saudável não se mede pelo número de experiências concretizadas, mas pela qualidade da ligação que promove consigo próprio(a). Pode ser útil que inclua diferentes dimensões da vida: o fazer, o sentir, o ser e o estar.
Para além de desejos externos, como viajar ou aprender algo novo, pode ser importante incluir intenções internas, como:
- aprender a respeitar os próprios limites,
- criar espaço para o descanso,
- permitir-se mudar de opinião,
- cuidar das relações significativas,
- reconectar-se com a criatividade.
Uma bucket list realista também valoriza os pequenos gestos. Nem tudo precisa de ser grandioso para ser transformador. Às vezes, “ler em silêncio”, “voltar a desenhar”, “caminhar sem destino” ou “brincar sem pressa” têm um impacto emocional mais profundo do que grandes feitos.
Seria igualmente importante que fosse uma lista viva, aberta à revisão. Aquilo que hoje faz sentido pode deixar de fazer amanhã, e isso não invalida o percurso. Pelo contrário, revela crescimento, adaptação e escuta interna.

A bucket list, quando vivida de forma consciente, pode ser muito mais do que uma lista de coisas a fazer. Pode transformar-se num espaço de diálogo consigo próprio(a), de reconhecimento das próprias necessidades e de construção de sentido.
Não necessita de ser perfeita, nem completa, nem cumprida. Necessita apenas de ser honesta. Honesta com o momento de vida, com os limites, com os desejos e com a história pessoal de cada um.
Talvez a verdadeira função da bucket list não seja garantir que tudo é realizado, mas lembrar que a vida pode ser vivida com intenção, presença e cuidado. Que ainda há espaço para desejar, para sonhar e para escolher, mesmo quando o caminho é incerto.
No fundo, a bucket list não fala de morte. Fala de vida. Fala da vontade humana de não deixar o tempo passar em silêncio, mas de o habitar com significado, afeto e verdade.
Boas realizações!