T.I. O Direito ao Ócio

Vivemos numa sociedade onde o tempo parece necessitar de estar constantemente preenchido. Mesmo durante o verão, muitas pessoas mantêm rotinas aceleradas, agendas ocupadas, estímulos permanentes e a sensação de que é necessário aproveitar todos os momentos.

Aos poucos, o descanso começa também a transformar-se numa tarefa.

Contudo, do ponto de vista do desenvolvimento humano e do equilíbrio emocional, os momentos de pausa possuem um papel importante na regulação do corpo e da mente. O cérebro humano necessita de períodos de menor exigência para reorganizar informação, recuperar energia, estimular criatividade e processar experiências emocionais.

Nem sempre é no excesso de atividades que surgem os momentos mais significativos.

Por vezes, é precisamente no tempo aparentemente “vazio” que aparecem:

  • a imaginação,
  • a curiosidade,
  • a contemplação,
  • a criatividade
  • e a possibilidade de simplesmente estar presente.

Durante a infância, o aborrecimento pode funcionar como ponto de partida para o brincar espontâneo e para a criação de novas brincadeiras. Muitas das experiências mais criativas surgem precisamente quando a criança não possui uma atividade previamente estruturada ou um estímulo constante vindo de ecrãs e tecnologias.

  • Construir histórias,
  • inventar jogos,
  • observar insetos,
  • desenhar,
  • andar de bicicleta,
  • fazer castelos de areia,
  • ou simplesmente conversar durante uma viagem longa,
  • continuam a representar experiências importantes para o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional.

Na adolescência, o tempo livre poderá também representar uma oportunidade para explorar interesses pessoais, fortalecer relações presenciais e construir maior autonomia. Contudo, muitos jovens vivem atualmente ligados a estímulos permanentes, redes sociais e comparação constante, existindo pouca tolerância ao silêncio, à espera ou ao “não fazer nada”.

Talvez uma das grandes dificuldades da atualidade seja precisamente voltar a aprender a estar sem necessidade constante de estímulo.

Também muitos adultos revelam dificuldade em descansar sem culpa. Existe frequentemente a sensação de que até as férias necessitam de ser produtivas, intensas ou memoráveis. Contudo, descansar não significa ausência de valor ou inutilidade.

Descansar significa permitir recuperação física, emocional e cognitiva.

Nos seniores, o tempo lento pode também assumir um papel importante ao nível da memória, da socialização, da criatividade e do bem-estar emocional. Atividades simples, caminhadas, jogos tradicionais, conversas demoradas ou momentos em família continuam a representar formas importantes de ligação humana.

O verão poderá, assim, funcionar como oportunidade para recuperar ritmos mais humanos.

Menos aceleração.
Menos hiperestimulação.
Mais presença.

  • Uma ida simples à praia.
  • O som do vento ao final do dia.
  • Uma viagem de comboio.
  • Um jogo de cartas.
  • Uma conversa longa numa varanda quente de verão.

Porque nem todos os momentos necessitam de ser extraordinários para permanecerem na memória. Por vezes, é precisamente quando o tempo abranda que conseguimos voltar a sentir aquilo que o excesso de estímulos foi afastando.