Emociona-Te! com Women Talking

Há filmes que terminam quando surgem os créditos finais. Outros permanecem connosco durante algum tempo, não necessariamente pelas respostas que apresentam, mas pelas perguntas que deixam.

Women Talking pertence a este segundo grupo.

Partindo de uma realidade marcada pela violência exercida sobre um grupo de mulheres pertencentes a uma comunidade religiosa isolada, o filme poderia facilmente centrar-se nos acontecimentos traumáticos vividos ou na procura de justiça. No entanto, escolhe outro caminho. Coloca as mulheres num espaço comum e permite-lhes fazer algo aparentemente simples: conversar.

Perante a violência sofrida, existem três possibilidades: não fazer nada, ficar e lutar ou partir. A questão parece, inicialmente, relativamente simples. Contudo, à medida que as personagens começam a conversar, percebemos que nenhuma destas possibilidades pode ser analisada isoladamente.

Partir significa deixar para trás uma comunidade, uma forma de vida, relações, afetos, memórias e crenças.

Ficar poderá significar continuar exposta ao perigo, mas poderá também representar a vontade de transformar aquilo que existe.

Lutar levanta outras questões: contra quem, de que forma e com que consequências?

E não fazer nada, embora possa parecer incompreensível para quem observa de fora, também necessita de ser compreendido a partir do medo, da dependência, da ausência de alternativas e de uma vida inteira construída dentro daquele sistema. É neste momento que Women Talking deixa de ser apenas uma história sobre um grupo de mulheres e começa a transformar-se num exercício sobre a forma como construímos decisões.

A mesma pergunta, diferentes formas de pensar

Uma das dimensões mais interessantes do filme encontra-se na diversidade das formas de argumentação das personagens. Todas viveram dentro da mesma comunidade. Todas conhecem a violência que ocorreu. Todas estão perante a mesma decisão.

E, ainda assim, não pensam da mesma maneira.

Cada personagem parece introduzir uma variável diferente na discussão. Para algumas, a prioridade encontra-se na proteção dos filhos. Para outras, na justiça. Noutras surge a fé, o perdão, a raiva, o medo, a pertença à comunidade, a preocupação com aquilo que acontecerá aos rapazes e aos homens que permanecerem ou a possibilidade de construir uma realidade diferente para as gerações seguintes.

Consequentemente, aquilo a que assistimos não é simplesmente a uma discussão entre diferentes opiniões. Assistimos a diferentes formas de construir uma opinião. E talvez seja aqui que o filme nos possa fazer parar.

Quando defendemos determinada posição, quanto da nossa argumentação resulta exclusivamente daquilo que consideramos racional e quanto resulta da nossa história, das nossas emoções, dos nossos vínculos, dos nossos receios e daquilo que aprendemos ao longo da vida?

Uma personagem pode argumentar através da raiva porque necessita de justiça. Outra poderá fazê-lo através da fé porque essa fé continua a constituir uma parte importante da sua identidade. Outra poderá resistir à mudança porque o desconhecido lhe parece mais ameaçador do que aquilo que conhece.

Nenhuma destas dimensões anula necessariamente as restantes.

Pelo contrário, o filme vai mostrando que uma decisão complexa poderá necessitar de várias formas de pensar para poder ser verdadeiramente compreendida.

Mulheres que não representam “as mulheres”

As personagens de Women Talking não parecem ter sido construídas para representar uma única perspetiva feminina.

  • Discordam.
  • Interrompem-se.
  • Irritam-se umas com as outras.
  • Defendem posições contraditórias.
  • Algumas querem partir, outras hesitam, outras resistem. Algumas procuram conciliar aquilo que aconteceu com a sua fé; outras questionam profundamente o sistema onde viveram. Algumas pensam sobretudo no presente; outras começam a imaginar aquilo que poderá acontecer às crianças e às gerações seguintes.

E talvez seja precisamente esta diversidade que torne o filme tão atual.

Nas últimas décadas, temos assistido a uma transformação significativa do papel das mulheres em muitas sociedades. Falamos de autonomia, igualdade, maternidade, carreira, sexualidade, relações, violência, participação social e liberdade de escolha.

Mas poderá existir uma pergunta adicional:

Quando defendemos a liberdade das mulheres, estamos igualmente preparados para aceitar que mulheres diferentes façam escolhas diferentes?

A emancipação dificilmente poderá significar a substituição de um modelo obrigatório de mulher por outro.

Uma mulher poderá desejar investir profundamente na sua carreira e outra encontrar realização numa vida mais centrada na família. Uma poderá desejar ser mãe e outra não. Uma poderá romper com determinadas tradições e outra desejar preservá-las. Uma poderá responder à injustiça através da confrontação e outra procurar formas de reconciliação.

A questão talvez não esteja em determinar qual destas mulheres representa melhor aquilo que significa ser uma mulher livre.Talvez esteja em perceber se cada uma teve verdadeiramente condições para escolher.

E Women Talking coloca-nos precisamente perante esta dificuldade. Como se aprende a escolher quando, durante grande parte da vida, alguém escolheu por nós?

Conversar não significa concordar

Talvez uma das ideias mais bonitas do filme esteja precisamente aqui. A conversa não elimina o conflito.

As mulheres não chegam a uma conclusão porque começam todas a pensar da mesma maneira. Chegam progressivamente a uma possibilidade de decisão porque continuam a conversar apesar de pensarem de maneira diferente.

O argumento de uma obriga outra a pensar novamente. Uma experiência pessoal modifica a forma como determinada questão estava a ser analisada. Uma pergunta introduz uma consequência que ainda não tinha sido considerada.

Elas pensam enquanto conversam. E isto permite-nos transportar Women Talking para muito além daquela comunidade.

Vivemos num período em que muitas discussões sociais parecem organizar-se rapidamente em posições opostas. Frequentemente procuramos perceber de que lado alguém se encontra antes de procurarmos compreender como chegou àquela posição.

O filme propõe-nos quase o movimento contrário.

  • Convida-nos a permanecer na conversa.
  • A ouvir um argumento com o qual não concordamos.
  • A tentar compreender de onde surgiu.
  • A permitir que uma pergunta altere parcialmente aquilo que pensávamos.
  • E a reconhecer que mudar de opinião durante uma conversa não significa necessariamente perder uma discussão.

Poderá significar que pensámos.

Talvez por isso o título seja tão simples e, simultaneamente, tão significativo.

  • Não são mulheres a fugir.
  • Não são mulheres a lutar.
  • Não são sequer mulheres a decidir.
  • São mulheres a conversar.

E talvez uma das maiores forças de Women Talking esteja exatamente aí: não nos dizer aquilo que aquelas mulheres deveriam escolher, mas obrigar-nos a permanecer com elas durante o difícil processo de aprenderem que podem escolher.

Boas visualizações e reflexões!