T.I. “E se fosse contigo…”

Hoje vamos falar de um exercício de imagética!

Imagética é uma técnica que permite ajudar a pessoa a visualizar uma determinada situação ou cenário real ou hipotético.

Numa sessão de esclarecimentos sobre a sexualidade, é importante ajudarmos os jovens a ponderarem sobre o respeito sobre o seu corpo como do corpo do outro, e nesse sentido sugerimos um exercício de imagética ideal para fazer parar e pensar!

Iniciamos a sessão a perguntar a todos como se sentem, ouvirmos o feedback, brincamos um pouco com algum aluno mais atento e mais desafiador!

Perguntamos se sabem o que vamos lá fazer! Ouvimos mais uma vez as respostas, abrimos o espaço para que se sintam a vontade de perguntar o que quiserem, partilhando algo deste género: “Como numa sessão de psicologia, tudo poderá ser dito, contudo nem tudo poderá ser feito! Por isso estejam a vontade para perguntar tudo e veremos o que poderá ser respondido!

Nestes momentos por norma há sorrisos e algumas perguntas ao desafio: “Poderemos mesmo fazer todas as perguntas?” “Todas mesmo?

Respondemos sempre: “Sim! Contudo primeiro preciso da vossa colaboração num pequeno exercício!

O silêncio invade a sala, e tranquilamente explicamos: “Vou pedir dentro de alguns segundos que façam uma viagem comigo, não vão necessitar de sair do lugar, só vou pedir que possam fechar os olhos! E irão acompanhar-me neste passeio que iremos dar!

Se houver alguém que se sinta profundamente desconfortável em fechar os olhos, pedia que foca-se unicamente num ponto da sala e olha-se para ele fixamente enquanto me ouve!”

Ninguém por norma fala, e nesse momento pedimos: “Fechem os olhos, respirem fundo! Imaginem-se a ver um filme que decorre mesmo ao vosso lado, e vocês estão a ver toda a cena, mas ninguém vos vê!

Vemos as respirações a serem feitas, e a serenidade a tomar conta do momento, e começamos: “Vemos uma mulher a tomar o pequeno-almoço, a arrumar a loiça calmamente antes de sair de casa, para um dia soalheiro na rua!

Desce as escadas, pelo caminho cumprimenta a vizinha e deseja um bom dia! Sai para a rua, e começa a caminhar! Nesse dia iniciaram as obras ao lado, e um grupo de homens simpaticamente lança os piropos: “Aí que a Primavera chegou mais cedo e eu ainda não sabia!” – Outro diz: – “Ai o que eu fazia com aquela saia!”

E ela continua a caminhar, cerrando os dentes! E eles perto riem-se alto, e assobiam! Vai-se afastando e preparando para apanhar o autocarro! Espera na fila para entrar, e o autocarro semi-cheio chega. Não há lugares sentados. Precisa ir de pé, e avança para o lugar onde se costuma ir de pé. A sua volta fazem uma roda, e começam a comentar o que gostaria de fazer e como vão fazer se tiverem uma oportunidade de estarem com uma mulher gira!

Ela vira a cabeça para a janela, não diz nada, contra 8 rapagões já quase homens. São todos mais altos e alguns com o tronco bem definido! Assim que chega a sua paragem, se dirige para a saída no último momento, para evitar ser seguida para fora. 

Cá fora, precisa de passar pelo túnel para chegar ao seu destino, vendo uma serie de mulheres em grupo, que fazem um corredor. Vendo que não tem como passar a não ser pelo meio, avança destemida. Assim que entra no corredor, começam os comentários, os toques, algumas chegam mesmo a apalpar, outras a puxar os cabelos. São mais de 10 mulheres no corredor, uma mais emocional, acaba por ofender e a seguir começam as ofensas. 

E ela segue por entre mãos, toques e ofensas, consegue chegar às escadas e sobe!

Quando chega à porta do seu trabalho, respira fundo e abre a porta! Lá dentro, é chamada aos gritos pelo chefe, que lhe diz as tarefas que necessitam de serem feitas a gritar, e pelo meio faz comentários sobre a saia que ela vestiu! 

Chega a hora ao final do dia, e como vai para outro destino, decide ir de metro, e após estar dentro da carruagem, acaba por ser apertada entre homens que roçam, por estarem apertados, dizem eles!

Existe espaço de dois braços para estarem afastados uns dos outros. 

São demasiados para protestar! Ela olha para a janela em silêncio! Espera que chegue a sua estação!

Sai da carruagem, da estação, e na rua vai tomar um café!

E ainda faltam várias horas para voltar para casa!

Agora vou-vos pedir que olhem bem para esta mulher, reparem na saia dela! Uma saia comprida até debaixo dos joelhos, com flores pequenas! Uma camisa ligeiramente larga, azul escura, e um blazer ligeiramente mais comprido e umas sabrinas simples.

Agora olhem nos olhos, vejam tudo aquilo que mais ninguém viu, vejam como ela se sente depois de tanto contacto!

Olhem bem para os olhos dela!

Reconhecem?  Ela poderia a vossa mãe!”

 

Nestes momentos, abrem os olhos, e ficam inquietos e abrimos o debate! As perguntas surgem:

  • Porque ela não agiu?
  • A roupa que ela tinha?
  • Porque razão os outros chatearam-na?
  • O que fariam numa situação destas?
  • O que está mal aqui?
  • Porque razão ninguém fez nada para impedir?

E qual a temática que está por detrás de todos os comportamentos?

 

Abrimos espaço para falarmos sobre as formas de violência sobre o outro, e quando o outro é alguém que nós amamos, conseguimos ser tão indiferentes?

É um excelente exercício para se fazer com um grupo de adolescentes com mais de 13/14 anos, tendo em conta que os ajuda a tomar consciência da impotência, como da necessidade de respeitar o outro. Ajuda-os a ter emoções fortes e uma imagem que mexe com eles o suficiente para partilharem as suas reflexões e emoções, e desta forma abrimos o debate!

Boas intervenções!