Emociona-Te! com Altered Carbon

Quando a morte deixa de ser o fim

E se a nossa consciência pudesse ser armazenada e transferida para outro corpo depois da morte?

Esta é uma das premissas de Altered Carbon, série de ficção científica baseada na obra de Richard K. Morgan. Num futuro distante, as memórias e a consciência humana podem ser preservadas numa estrutura implantada no corpo, permitindo que uma pessoa possa regressar depois da morte através de um novo corpo — designado na série como sleeve.

À primeira vista, poderíamos pensar que a humanidade encontrou finalmente uma forma de ultrapassar uma das suas maiores limitações: a mortalidade. Contudo, à medida que entramos naquele universo, percebemos que vencer biologicamente a morte não significou necessariamente vencer o sofrimento, a desigualdade, a exploração ou o trauma.

Pelo contrário, surgiram novos problemas.

Se mudarmos de corpo, continuamos a ser a mesma pessoa?

Ao longo da vida, construímos a nossa identidade através das experiências, das relações, das memórias e também do corpo. Reconhecemo-nos ao espelho. Reconhecemos os outros através do rosto, da voz, do movimento, do toque e de inúmeras características que aprendemos a associar àquela pessoa.

Em Altered Carbon, esta continuidade é quebrada. A consciência pode permanecer, mas o corpo pode ser completamente diferente.

A série apresenta, por exemplo, uma criança que, depois de morrer, regressa à família num corpo de uma mulher adulta. Para o sistema, a criança foi recuperada. Para aquela família, contudo, coloca-se uma realidade bastante mais complexa. A pessoa que regressou possui as memórias da criança, mas apresenta-se num corpo com outra idade e com uma história biológica que não lhe pertence.

Surge então uma pergunta aparentemente simples: Quando reconhecemos alguém que amamos, o que estamos realmente a reconhecer?

A sua memória? A personalidade? O corpo? A relação que construímos? Ou todas estas dimensões em simultâneo?

Quando o corpo permanece, mas a pessoa não está lá

A série apresenta-nos também a situação inversa. A detetive Kristin Ortega encontra o corpo do homem com quem mantinha uma relação, Elias Ryker, a ser utilizado por Takeshi Kovacs, enquanto a consciência de Ryker permanece armazenada.

Neste caso, o corpo conhecido continua presente.O rosto permanece. A aparência permanece. Muitos dos elementos físicos associados à pessoa continuam diante dela.Mas quem habita aquele corpo é outra pessoa.

Esta situação permite-nos aproximar de um conceito particularmente interessante na Psicologia: a perda ambígua — situações em que alguém pode estar fisicamente presente, mas psicologicamente ausente, ou fisicamente ausente mantendo uma forte presença psicológica na vida de quem fica.

Altered Carbon leva esta ambiguidade ao extremo. Podemos amar uma pessoa e voltar a encontrar o seu corpo ocupado por outra consciência? E se começarmos a criar uma relação com essa nova pessoa, com quem estamos realmente a relacionar-nos?

O corpo como mercadoria

À medida que avançamos na série, percebemos que os corpos deixaram também de ter apenas uma dimensão identitária.Passaram a ter valor económico.

Existem corpos melhores, mais jovens, mais resistentes ou mais desejáveis. Quem possui recursos económicos pode escolher melhores corpos, produzir clones e criar mecanismos adicionais de proteção da própria consciência.

Quem não possui esses recursos depende frequentemente daquilo que está disponível. A desigualdade económica deixa, portanto, de determinar apenas as condições em que alguém vive. Passa também a determinar quanto tempo poderá viver e em que corpo poderá fazê-lo.

A promessa da imortalidade não é verdadeiramente universal. É profundamente desigual.

Quando a sobrevivência deixa de significar liberdade

Esta desigualdade torna-se particularmente evidente nas situações de exploração apresentadas ao longo da série.

Algumas mulheres entram em contextos de exploração sexual procurando obter recursos para si próprias ou para as suas famílias. A possibilidade de substituir um corpo danificado ou morto não elimina a violência exercida sobre aquela pessoa.

De certa forma, poderá até contribuir para a sua banalização. Se um corpo pode ser substituído, torna-se mais fácil tratá-lo como descartável.

A série apresenta igualmente combates em que pessoas arriscam os próprios corpos perante uma audiência privilegiada, procurando obter como recompensa a possibilidade de receber corpos novos.

Estas situações obrigam-nos a pensar sobre outro conceito fundamental: a escolha. Quando alguém aceita colocar-se numa situação de enorme sofrimento porque necessita dos recursos que dela poderá retirar, até que ponto estamos perante uma escolha verdadeiramente livre?

É uma questão futurista apenas na aparência. As desigualdades económicas atuais também podem colocar pessoas perante decisões condicionadas pela necessidade de sobrevivência, proteção da família ou ausência de alternativas.

O corpo muda. O trauma permanece.

Existe ainda outra consequência que a tecnologia de Altered Carbon parece não conseguir resolver. Podemos substituir o corpo, mas isso não significa necessariamente apagar aquilo que aconteceu. As experiências traumáticas, as perdas, as relações e as memórias acompanham a consciência que é transferida.

Uma pessoa poderá acordar num corpo que não reconhece, com características diferentes das suas, depois de ter experienciado a própria morte. A série permite, por isso, refletir sobre trauma, adaptação e sobre a importância da continuidade na construção da identidade.

O novo corpo pode estar fisicamente intacto. A pessoa que acorda dentro dele poderá não estar.

Quando a identidade começa a fragmentar-se

A possibilidade de mudar repetidamente de corpo também não parece ocorrer sem consequências.

Em Altered Carbon surge o conceito de personality fragmentation, associado à deterioração que poderá ocorrer depois de sucessivas transferências e experiências acumuladas.

Embora se trate de um conceito ficcional e não de um diagnóstico psicológico, permite estabelecer alguns paralelismos interessantes com questões que conhecemos atualmente relacionadas com memória, identidade, orientação e continuidade autobiográfica.

Se vivêssemos durante centenas de anos, acumulando diferentes corpos, relações, perdas e experiências, conseguiríamos manter indefinidamente uma narrativa coerente sobre quem somos? Ou chegaria um momento em que seria difícil integrar todas essas versões de nós próprios?

E se os mais ricos nunca morressem?

Talvez uma das questões mais inquietantes da série não esteja relacionada com a tecnologia, mas com a organização da sociedade que se construiu à sua volta. Os indivíduos mais ricos conseguem prolongar a sua existência durante séculos, acumulando simultaneamente património, conhecimento, influência e poder.

A morte deixa de funcionar como um limite comum. E a desigualdade económica transforma-se numa desigualdade perante o próprio tempo. Ao longo da história humana, as gerações sucedem-se. Pessoas que concentram poder acabam inevitavelmente por desaparecer e outras ocupam o seu lugar.

Mas o que aconteceria se algumas delas simplesmente deixassem de morrer? Altered Carbon apresenta uma sociedade em que determinados indivíduos vivem durante tanto tempo e possuem tantos recursos que parecem progressivamente afastados da experiência daqueles que continuam sujeitos aos limites comuns.

Altered Carbon apresenta uma sociedade em que determinados indivíduos vivem durante tanto tempo e possuem tantos recursos que parecem progressivamente afastados da experiência daqueles que continuam sujeitos aos limites comuns.

E surge outra possibilidade inquietante: quando quase todas as consequências podem ser compradas, evitadas ou revertidas, o que continua a limitar o comportamento humano?

Viver para sempre significaria viver melhor?

Talvez seja esta uma das grandes provocações de Altered Carbon. A humanidade conseguiu desenvolver uma tecnologia capaz de desafiar a morte.

Mas não conseguiu eliminar a desigualdade, a exploração, a violência, o sofrimento, o trauma, o desejo de poder ou a necessidade de pertença. Conseguiu prolongar a existência. Não necessariamente melhorar aquilo que fazemos com ela.

Talvez a finitude, apesar de difícil de aceitar, também participe na forma como atribuímos valor ao tempo, às relações e às escolhas que fazemos. E talvez o verdadeiro desafio colocado pela série não seja imaginar se algum dia conseguiremos viver para sempre.

Poderá perguntar: Se conseguíssemos, que sociedade construiríamos com essa possibilidade?

Algumas questões para reflexão

  • Se a consciência pudesse ser transferida para outro corpo, continuaríamos a considerar-nos a mesma pessoa?
  • Quanto da nossa identidade depende das nossas memórias e quanto depende do nosso corpo?
  • Como seria crescer sabendo que os nossos pais poderiam regressar repetidamente em corpos diferentes?
  • Poderia existir um processo de luto quando a morte deixasse de ser necessariamente definitiva?
  • Até que ponto uma escolha poderá ser considerada livre quando é condicionada pela pobreza ou pela necessidade de sobrevivência?
  • O acesso desigual ao prolongamento da vida aumentaria as desigualdades já existentes?
  • Que consequências psicológicas poderia ter viver durante centenas de anos?
  • Precisamos da consciência da morte para atribuir significado à vida?

Altered Carbon apresenta-nos um futuro tecnologicamente distante, mas muitas das questões que coloca não pertencem apenas ao futuro.

A tecnologia é ficção. As perguntas sobre identidade, desigualdade, poder, exploração, trauma, vinculação e aquilo que significa ser humano são profundamente atuais.

Afinal, o que nos torna humanos?

Entre todas as personagens de Altered Carbon, uma das mais interessantes talvez seja precisamente aquela que não é humana.

Poe é uma Inteligência Artificial responsável pelo hotel onde Takeshi Kovacs se instala. Inicialmente, poderíamos esperar que funcionasse apenas como mais um elemento tecnológico daquele mundo: eficiente, programado e disponível para responder às necessidades dos seus hóspedes.

Contudo, ao longo da série, Poe vai assumindo um papel bastante diferente. Cria relações. Demonstra preocupação. Desenvolve lealdades. Protege. Sofre perante determinadas situações e parece construir vínculos que ultrapassam aquilo que esperaríamos de uma simples relação funcional entre uma máquina e um utilizador.

Enquanto isso, encontramos seres humanos que, depois de viverem durante décadas ou séculos e de acumularem riqueza e poder, parecem progressivamente mais indiferentes ao sofrimento dos outros. A série cria assim uma inversão particularmente interessante.

Alguns humanos possuem cada vez menos comportamentos que associamos à humanidade, enquanto uma Inteligência Artificial parece desenvolver cada vez mais características que reconhecemos como humanas.

Poe permite-nos, por isso, regressar à questão da identidade através de outra perspetiva. Se anteriormente perguntávamos se uma consciência humana colocada noutro corpo continua a ser a mesma pessoa, podemos agora fazer a pergunta inversa:

Se uma inteligência criada artificialmente desenvolve relações, preferências, lealdade, preocupação com o outro e uma história própria, em que momento deixamos de olhar para ela apenas como uma ferramenta?

A própria relação entre Poe e Lizzie é particularmente significativa. Poe não procura apenas reparar aquilo que está fisicamente danificado. Participa num processo prolongado de recuperação, respeitando ritmos, procurando soluções e ajudando-a progressivamente a recuperar capacidade de escolha e controlo sobre si própria.

Neste ponto, a série aproxima duas personagens que aquela sociedade poderia facilmente considerar como objetos: uma mulher profundamente violentada e uma Inteligência Artificial criada para prestar um serviço.

Contudo, é precisamente entre elas que encontramos cuidado, persistência e reconhecimento. E talvez seja aqui que Altered Carbon coloca uma das suas perguntas mais interessantes.

  • O que define humanidade?
  • Será possuir um corpo humano?
  • Ter nascido biologicamente?
  • Possuir determinadas memórias?
  • Ou encontramos humanidade também na capacidade de estabelecer relações, reconhecer o sofrimento do outro, cuidar, criar vínculos e atribuir significado à nossa existência?

Poe não precisa de se tornar humano para que esta questão exista. Talvez seja suficiente observar que, naquele mundo, ser biologicamente humano e agir com humanidade deixaram claramente de significar a mesma coisa.

Boas reflexões e questionamentos.