T.I. Terapia cognitiva na prática: compreender para poder intervir

Quando pensamos em terapia, podemos imaginar sobretudo um espaço onde se fala sobre acontecimentos, experiências, relações ou dificuldades. Contudo, uma parte importante do processo terapêutico consiste também em compreender como interpretamos aquilo que nos acontece.

Na terapia cognitiva, parte-se da ideia de que, perante uma mesma situação diferentes pessoas podem pensar, sentir e agir de formas muito distintas. Isto acontece porque não reagimos apenas ao acontecimento em si: reagimos também ao significado que lhe atribuímos.

Por exemplo, receber uma crítica no trabalho pode ser interpretado como uma oportunidade para corrigir alguma coisa, mas também pode desencadear pensamentos como “não sou suficientemente competente”, “vou falhar” ou “vão deixar de confiar em mim”. O acontecimento pode ser semelhante, mas os pensamentos associados influenciam as emoções sentidas e aquilo que fazemos posteriormente.

É precisamente nesta relação entre situações, pensamentos, emoções e comportamentos que encontramos uma das bases da intervenção cognitiva.

Dos pensamentos automáticos às crenças

Alguns pensamentos surgem de forma tão rápida que quase não damos conta deles. Parecem evidentes, verdadeiros ou simplesmente uma consequência natural daquilo que aconteceu.

Contudo, aprender a identificá-los permite começar a perguntar:

O que aconteceu realmente? O que pensei naquele momento? O que senti? Que interpretação fiz da situação? Existem outras formas possíveis de olhar para aquilo que aconteceu?

Este processo não procura transformar todos os pensamentos negativos em pensamentos positivos. Procura, antes, desenvolver uma forma de pensar mais consciente, flexível e ajustada às evidências disponíveis.

É também neste percurso que podemos identificar padrões recorrentes de pensamento — frequentemente designados por distorções cognitivas — como a catastrofização, a leitura da mente, a previsão negativa do futuro, o pensamento tudo-ou-nada, a personalização ou a desqualificação dos aspetos positivos, entre outras.

Quem é Robert L. Leahy?

Robert L. Leahy é um psicólogo norte-americano reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho na área da terapia cognitivo-comportamental (TCC). Foi presidente da Association for Behavioral and Cognitive Therapies e da International Association of Cognitive Behavioral Therapy e desenvolveu uma extensa atividade clínica, científica e formativa dedicada ao estudo dos processos cognitivos e emocionais. Ao longo da sua obra, tem procurado aproximar os modelos teóricos da prática clínica, sistematizando estratégias que ajudam os terapeutas a identificar e trabalhar pensamentos automáticos, crenças, distorções cognitivas, preocupação, ruminação e dificuldades na regulação emocional.

No livro Técnicas de Terapia Cognitiva: Manual do Terapeuta, que servirá de referência para esta série de artigos, Leahy reúne diferentes técnicas de intervenção cognitiva, apresentando não apenas os seus fundamentos, mas também formas concretas de as explorar no contexto terapêutico.

Uma nova série no blogue

Partindo do trabalho desenvolvido e sistematizado por Robert L. Leahy, ao longo dos próximos artigos iremos explorar diferentes técnicas da terapia cognitiva, procurando apresentá-las numa linguagem acessível e, sempre que possível, acompanhadas de exemplos que permitam compreender a sua utilização na prática.

Falaremos, entre outros aspetos, sobre a distinção entre acontecimentos, pensamentos e emoções; a identificação de pensamentos automáticos; o reconhecimento de distorções cognitivas; a procura de interpretações alternativas; a análise das evidências que sustentam determinado pensamento; e diferentes formas de flexibilizar padrões de pensamento que contribuem para o sofrimento emocional.

Mais do que apresentar um conjunto de “exercícios para pensar positivo”, pretendemos mostrar como estas técnicas podem ajudar a observar o próprio pensamento com maior curiosidade e distância, compreendendo de que forma determinadas interpretações influenciam aquilo que sentimos e fazemos.

Porque, por vezes, não conseguimos alterar aquilo que aconteceu.

Mas podemos aprender a compreender melhor o que acontece dentro de nós perante aquilo que aconteceu.

Referência de base da série:
Leahy, R. L. (2018). Técnicas de terapia cognitiva: manual do terapeuta (2.ª ed.). Artmed.